Um homem vai à remota mansão do seu velho amigo Roderick Úsher e encontra uma casa consumida pela decadência e uma família que parece avançar inevitavelmente para o seu desaparecimento. Doença, isolamento e conexão inquietante entre os habitantes e o edifício tornam a estadia num pesadelo crescente. Um dos relatos góticos fundamentais de Poe, publicado pela primeira vez em 1839.
DURANTE um longo dia de outono, triste, pesado e sombrio, daqueles em que penduram as nuvens opressivamente baixas no firmamento, atravessava apenas, a cavalo, um monótono erial para me encontrar no fim, conforme avançavam as sombras da noite, à frente da melancólica casa de Úsher. Não sei por que, mas à primeira ojeada ao edifício, um sentimento de tristeza intolerável se apoderou do meu espírito. Digo intolerável, porque esta impressão não estava sequer atenuada por aquela sensação quase agradável, por quanto poética, com que geralmente recebe o cérebro as imagens naturais, embora austeras do desolado e do terrível. Olhava a cena que se desenrolava diante dos meus olhos: a casa e as simples linhas da paisagem dos arredores do domínio, os muros gelados, as janelas semejando bacias vazias, alguns lozanos juncos e alguns brancos troncos de árvores moribundos; olheva tudo com depressão de espírito tão profunda que só pode ser comparado com propriedade ao despertar dos sonhos de um fumador de ópio, ao amargo ingresso na vida, ao rasgamento horrível dos véus. Sentíase tal frieza, tal desfalação, tal angústia do coração, uma melancolia tão irremediavelmente da mente, que nenhum estímulo era capaz de impulsionar a imaginação para a ideia do sublime. O que era aquilo, me detengo a pensar, aquilo que enervava tanto na contemplação da casa de Úsher? Mistério insolúvel; nem sequer podia lutar com as sombrias fantasi as que acudiam em tropel à minha mente quando tentava investigar. Eu via-me obrigado a voltar à pouco satisfatória conclusão de que existe indubitavelmente alguma combinação de objetos simples que tem a faculdade de nos afetar de tal maneira, mesmo que a análise desta faculdade resida em considerações superiores à nossa capacidade. Era muito possível, refletia eu, que simplesmente um arranjo diverso dos detalhes da cena, dos toques do quadro, fosse suficiente para modificar e anular talvez por completo a sua qualidade de impressionar tristemente; e raciocinando assim, encaminei a minha cabalgadura para a margem escarpada de um negro e cárdeno lago que jácia com brilho imóvel perto da morada; olhei para baixo, e pude contemplar no fundo com estremecimento mais vivo ainda a imagem reflete e invertida das cinzentas junceas, dos ramos das árvores semejando espectros, e das janelas que apareciam como bacias vazias. Apesar de tudo, eu tinha que ficar algumas semanas naquela mansão fatídica. Seu proprietário, Róderick Úsher, era um dos melhores camaradas da minha juventude; mas tinham